quinta-feira, 3 de maio de 2012


Viagem ao Atacama em ABRIL/2012

Primeiros dias
06-04-2012 – Sexta-feira
Há tempos que pretendia fazer uma viagem de verdade. Daquelas que representam um verdadeiro desafio. Daquelas que nos trazem a grande dúvida; “Será que vou conseguir?”. Daquelas tipo “vou ou não vou...?”.
Pois bem, eu e o Marcus, depois de muito debater, depois de ler tudo o que tinha nome de relato de viagens na internet, depois de avaliar tudo e, principalmente, depois de conseguir o tão famoso e desejado Alvará Conjugal, decidimos pelo Atacama. Tínhamos a opção de Ushuaia e Machu Picchu, mas achamos que o tempo seria demasiadamente longo para qualquer um dessas duas viagens. Restava o Atacama, que representa uma paisagem totalmente diferente da nossa, além de ter os Andes e o desafio de percorrer dois (ou três) países estrangeiros.
Em Julho de 2011, decidimos a data. Depois escolhemos as motos. Dentro das nossas condições, escolhemos a Transalp, pelo estilo on/off, pela confiabilidade e facilidade de manutenção da Honda, pela potência e pelo consumo. Em dezembro do mesmo ano conseguimos comprar as motos. A partir daí a viagem começava a tomar forma. Reunimos informações, ouvimos atentamente as dicas dos parceiros, adquirimos equipamentos, etc. Mudamos várias vezes os roteiros, que deveria ter um mínimo de 17 e um máximo de 21 dias. O objetivo principal era conhecer os Altiplanos Andinos, via Paso de Jama, a região de San Pedro de Atacama e chegar ao Oceano Pacífico. Depois disso, tudo estava em aberto. Poderíamos voltar pelo mesmo caminho, ou retornar mais ao sul pelo Paso Cristo Redentor e região Central da Argentina.
Na antevéspera da partida, dia 04-04-12, fizemos um churrasco para nos despedir da família e amigos. Tivemos o prazer de receber os amigos do nosso moto-grupo, os Bastiões da Estrada, amigos de Macaé (Ivan e Lilico), de Cantagalo, AC e Adriano e nosso parceirão Delocco, que iria conosco nesta aventura, mas, por sua família necessitar de sua presença, deixou para nos dar a honra de sua companhia em outra oportunidade. Gosto muito de gente e percebo que ter a “casa cheia” nos renova a energia. Senti que estava mais abastecido de energia para enfrentar os desafios da viagem.

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Os amigos Delocco e Lilico.

Depois de todo o frio na barriga que qualquer grande viagem causa, partimos no dia 06 de abril de 2012. Já saímos atrasados. A previsão era sair às 5 da manhã, mas eu havia trocado o chip do celular e não atualizei a hora do despertador. Resultado: acordei já eram  quase seis, e o Marcus já estava esperando na varanda há quase uma hora. Minha amada levantou cedinho para fazer um café e me dá aquele beijo e aquele abraço de despedida.

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Quilometragem inicial.

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A Partida

Partimos por volta das 6:40. Dia bonito, já bem claro, sem promessa de chuva, porém com nuvens no céu. O primeiro trecho de viagens para nós que saímos daqui da região serrana do Rio é sempre o pior. Além de travado pelas curvas naturais de qualquer região montanhosa, ainda temos o asfalto em péssima condição no trecho entre Cantagalo e Além Paraíba. É sempre assim, levamos uma hora para percorrer os primeiros 80 km. Depois, já na BR-393, a viagem começa a fluir um pouco melhor, apesar dos “pare-e-sigas” em vários trechos.
Primeiro abastecimento de um total de mais de cinqüenta em toda a viagem, foi no trevo de Três Rios, Ali vi que os alforges tinham alterado bastante o consumo da transalp. Estava fazendo menos de 20 km/litro, quando antes fazia sempre por volta de 22. Ali já pudemos experimentar o fascínio que a viagem de moto exerce sobre as pessoas. Há menos de 200 km de casa já fomos abortados por um casal que queria saber para onde iríamos. Ao saber que o destino era o Chile fizeram aquela cara de “ohh!!!”. Confessaram que também gostavam de moto (já tinha tido uma custon 900 cilindradas mas não lembrava o modelo) e pretendiam fazer viagem semelhante assim que se aposentassem...

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Primeiro abastecimento, em Três Rios

Seguimos viagem. Trânsito bom, apesar de ser feriadão (semana santa). Pegamos a Dutra em Volta Redonda. Ali o ritmo melhorou a inda mais. Próximo abastecimento somente em Cruzeiro.  Ali, de novo somos abortado. Desta vez por um corredor de maratona (não me lembro o nome) mas estava voltando da Maratona de Paris. Disse ser proprietário de uma pizzaria em Angra dos Reis (Pizzaria 10-10). Nos deixou um cartão e desejou boa viagem.
Saímos da Dutra em Taubaté e pegamos a Carvalho Pinto. Oh estradinha boa. Limite de 120 por hora, quase nenhum tráfego na nossa pista. Chatinho somente os pedágios. Chegamos à capital paulista e encontramos o trânsito tranqüilo, como se era de esperar, em virtude do feriado. Só não esperávamos a restrição de motos na Marginal do Tietê. Quando vimos já estávamos bem enrolados e não sabíamos para onde ir, sem nos perder na capital. Acabamos atravessando todo o trecho até a saída para a Castelo Branco na área restrita. Estamos torcendo para que as multas não cheguem...
Atravessar a capital é sempre um desafio para quem vem de cidade pequena, não acostumado àquele mundão de pistas paralelas. Aquela imensidade de placas e informações simultâneas. Quando finalmente saímos daquela muvuca sentimos um grande alívio.
Paramos no Graal de Barueri para abastecer. A rede Graal é extraordinária na limpeza e organização. Mas os preços... Deus me livre. Dali seguimos novamente. Nosso objetivo seria Ourinhos. Já eram duas da tarde e ainda faltavam mais de 350 km. Mas a estrada ajudava. Que belezura. Não estamos acostumados com  tanta reta e asfalto de primeiro mundo. E o melhor: moto ali não paga pedágio. Era só segurar a mão pra não passar de 130 km/h (já que o limite ali era 120), e tocar em frente. Chegamos a fazer uma média real de 114 km/h. No final da tarde, o sol poente, bem em nossa frente, judiou bastante.
Só não estávamos preparados para a escassez de postos de gasolina. Passamos um susto ao ter que abastecer já na reserva, tendo rodado mais de 280 km desde a última parada.
Acabamos decidindo ficar em uma cidadezinha a 30 km de Ourinhos. Geralmente nas cidades pequenas é mais fácil encontrar hotel com bom preço. Já havíamos percorrido quase 1.000 km neste dia. Paramos em Santa Cruz do Rio Pardo, cidadezinha pequena e simpática. Ficamos no Grande Hotel (nem tão grande assim). Mas a 40,00 por pessoa, com garagem bom banho e um café da manhã bem melhor do que todos os que encontramos fora do país, tava de bom tamanho.
Banho tomado, ligação para a família e saímos para comer alguma coisa. Encontramos a Pizzaria Pinhata. Tomamos umas Brahmas e começos uma porção de carne com aimpim. Delícia. Ainda recebemos a ligação  do Mano Boeira, de Capanema, confirmando que estava nos esperando lá no dia seguinte.


07-04-12

Acordamos cedo, e, enquanto arrumávamos as coisas, recebo uma mensagem via celular do André, de Assis, que nos convidara para pernoitarmos em sua cidade, mas desviaríamos da rota e seriam mais de 1.100 km no primeiro dia. Agradecemos mas não fomos. Respondi a mensagem e ele me ligou, dizendo que queria encontrar conosco no trevo de Ourinhos. Tomamos um bom café da manhã (tinha até melão, fruta raríssima que só veríamos novamente depois de duas semanas.
Conforme combinado, André nos esperava juntamente com a esposa Ana Paula, na entrada da lanchonete “Varanda do Suco”.  Marcus, que, como sempre, ia na frente, não viu e só encontrou um retorno vários quilômetros a frente. Parei e nos apresentamos. Foi um grande prazer conhecer o André e a esposa Paula. O cara é gente finíssima, daqueles com quem a gente conversa durante uma semana e não falta assunto. Acabou nos acompanhando pelos 680 quilômetros seguintes até Capanema. Sua companhia nos trouxe segurança para alguns trechos complicadinho, como nos arredores de Londrina. Valeu André, na próxima passamos por Assis.

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Encontrando o André, perto de Ourinhos

Depois de algumas raras curvas, entramos no Paraná. De cara um pedágio. E que pedágio carinho: R$ 5,90. Fiquei pensando “é o pedágio para moto mais caro que já paguei”. E, enquanto digeria o desaforo, me aparece outro pedágio, este mais caro ainda: R$ 6,20. Putz... Em resumo, até Cascavel foram R$ 32,00 de pedágio por cada moto
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Em razão dos trechos urbanos, quebra-molas, semáforos e coisa e tal, a viagem rendia bem menos que a do dia anterior.  Em Maringá, enquanto fazíamos um lanchinho, recebemos mensagem do Boeira, dizendo que um amigo seu, o Rodrigo, iria nos receber no Trevão de Cascavel e nos acompanhar por um trecho. Beleza.
Bem que o Boeira tinha nos avisado, iríamos demorar bem mais do que pensávamos para vencer o trecho de 670 km entre Ourinhos e Capanema. Mas mantivemos a esperança de chegar antes do anoitecer. Pouco antes de Cascavel, fomos parados pela primeira e única vez em toda a viagem pela polícia rodoviária brasileira. Os policiais foram corteses, verificaram a documentação, fizeram as perguntinhas básicas tipo “vão para algum encontro? “ e seguimos.
Na chegada do trevo de Cascavel usei pela única vez na viagem o ABS da transalp. Um sem-noção em um Mondeo aguardava para cruzar a pista. Já ameaçara atravessar na frente do Marcus e do André, que ia na frente. Eu que vinha a cerca de 30 metros atrás, como sempre faço, quase fui a vítima. O Fiadamãe simplesmente cruzou a pista. O freio funcionou direitinho. Acho que se não tivesse ABS teria travado a roda e entrado pela lateral dele...
Logo na saída do Trevo, encontramos o Rodrigo, amigo do Boeira, agora também nosso amigo. Nos apresentamos, proseamos um pouco e ele seguiu com a gente em direção a Capanema. Quando saímos da BR-277 que leva em direção a Foz do Iguaçu e pegamos a BR-182 em direção a Capanema, a coisa mudou de figura. A estrada tornou-se estreita e com o piso bem irregular. Muitos trechos com remendos. Felizmente, poucos buracos. Mas tudo bem, estamos bem acostumados com estradas parecidas na nossa região.

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Olha o Rodrigo aí com a gente no trevo de Cascavel



Pouco antes de Lindoeste foi a vez de Macus tomar seu susto. Eu fechava o grupo, com o Marcus logo à minha frente. André e Rodrigo já estavam à frente do caminhão que nos bloqueava por um trecho bem sinuoso. Por fim surgiu uma reta e o Marcus imediatamente abriu para ultrapassar. Acontece que havia uma grande e oculta depressão na pista, de onde, de repente, surgiu um caminhão vindo em sentido contrário. Me veio aquele frio na barriga. Marcus acelerou e usou todos os sessenta e poucos cavalos da Transalp para terminar a ultrapassagem bem no limite do tempo.
Uns cinco quilômetros antes do trevo de Capanema o Rodrigo se despediu e voltou para Cascavel. Logo na frente, no trevo , encontramos o nosso Mano Boeira, que nos aguardava com sua filha Luiza. Nos abraçamos, tiramos algumas fotos e seguimos para Capanema, assistindo o pôr-do-sol no horizonte.
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Chegamos na pequena e agradável Capanema no comecinho da noite. A Carla já nos esperava com uma cuca que é tradição nesta família que recebe com carinho desmedido todos os motociclistas viajantes que passam por ali. A “Toca do Boeira”, hoje é uma instituição, não só de apoio aos viajantes sobre duas rodas, mas também um local onde quem sai do Brasil recebe seu último abastecimento de energia fraternal.
Não demorou para nosso mestre anfitrião acender a churrasqueira e assar aquela picanha desmanchante, do “do lado que o boi não deita”. Com aquela cervejinha então... Ainda tomei uma cachacinha ali deixada por outro mano, o Telles. Tava tudo tão bom que não dava vontade de ir dormir, apesar do longo dia de viagem. Queríamos mesmo era ficar ali a noite inteira, proseando...
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Mestre churrasqueiro Boeira

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E a obra do mestre. Até agora dá água na boca só de lembrar.

Tudo maravilhoso: comida, amigos, papo, amizade. Valeu mano Boeira e família. Palavras não são suficientes para agradecer tanta dedicação.